segunda-feira, 2 de abril de 2012

São Paulo: IL CUORE DELLA CITTÀ


SÃO PAULO: IL CUORE DELLA CITTÀ

(Texto publicado na Revista Bimestral de Arte e Cultura – Artescultura, Ano 1 – n° 1, Novembro – Dezembro 1983 e versado pelo escultor Elvio Becheroni, publicado na Itália)

Proposta para a comunidade e os técnicos debaterem o projeto da área central da cidade através da Câmara Municipal.

1-     HUMANIZAÇÃO DA MEGALÓPOLIS
A tendência da maioria da população viver nas grandes cidades fez a megalópolis ser o maior símbolo, desafio e meio ecológico do Homem atual. Homem este, formado ao longo de milhões de anos, modificando uma gruta, os galhos de uma árvore ou aldeia feita por ele com materiais "in natura". Porém, muito de repente, se vê num habitat a ele imposto e sendo importante para mudá-lo, a megalópolis destruiu-lhe o caráter tribal e agora atinge sua estrutura familiar. Faz apenas um século que existe o escritório onde o homem se apresenta após 35 anos processando papéis, segregado, sentado com luz artificial: o homem sedentário com óculos e problemas de coluna entre outros maiores. Seu caráter atávico reprimido, sua vivência comunitária condicionada, todo esse deseducamento tem seu preço no indivíduo e na coletividade.
Sua vida em comunidade é reservada à passividade nos grandes espetáculos: ver, viver e pagar, armazenando uma carga de energia que explode ou lhe implode.
Pela necessidade de restabelecer o equilíbrio entre as esferas individuais e coletivas, foi em 1951 o tema do VIII Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM) em Hoddeston, Inglaterra: "The Core of the City", sendo Core o Centro de tudo e não o "Civic Center".
O Centro da Cidade é um problema humano que o arquiteto não resolverá  sem o historiador, o sociólogo e o médico entre outros, mas principalmente a participação do próprio povo, através de representações estruturadas das comunidades envolvidas.

2-     HISTÓRIA
Antigamente tínhamos as cidades só na horizontal.
O poder simbolizou-se na ocupação vertical. O Palácio Real ou o Templo dominavam a parte central.
Mas foi na Grécia, século V, onde nasceu a democracia que existia o "Agora", praça quadrada do povo, rodeada de edifícios públicos, e na época helenística rodeada pelo "stoa", um abrigo ao sol e chuva com colunas e átrios onde formava-se a "opinião pública".
O Capitólio de Roma, por Michelangelo, inclui no alto de uma colina uma praça trapezoidal, escada em rampa e três edifícios ao fundo: palácio dos senadores, dos conservadores e o museu. Ele criou um espaço V.O. a ser reconquistado, como hoje é o nosso desafio.
Não foi outro o sentido, quando o Concurso de Projetos para o Vale do Anhangabaú promovido pelo IAB, gestão Cesar Bergstron e Emurb, acatando uma proposta que fiz quando esta apresentou sua solução para ligar os dois lados do Vale por um conjunto de divergentes passarelas. Após amplos debates com a comunidade lotando o auditório da Caetano de Campos, definiu-se o critério contido no projeto vencedor, dos arquitetos Jorge Wilheim, Rosa Kliass e equipe: uma Praça Central ao pedestre contendo embaixo  a solução viária no espaço só dos carros. Aguardamos ansiosos a sua execução, com o incentivo do autor ser hoje o secretário municipal de Planejamento.
Sentido semelhante tinha a Avenida Paulista da gestão municipal Figueiredo Ferraz em que na superfície só haveria trânsito local de veículos e amplos espaços ao pedestre, e infelizmente sepultada em estado adiantado de obras pela deseconomia prefeito  Colassuono.
O Centro de São Paulo é filho de Prestes Maia com as Avenidas de Fundo de Vale e Viadutos. Numa demonstração de pujança lá brotavam os principais edifícios. Do seu uso intenso há três décadas surgiam vários edifícios com "galerias", contendo na área particular um espaço público, abrindo-se à população os emparedados quarteirões do Centro Novo como os primeiros projetos de Oscar Niemeyer: Eiffel, Califórnia e Copan; do arquiteto Heep, o Itália; e dos arquitetos Crocce, Aflalo e Gasperini, o Metrópole. Havia a esperança de ir-se da Rua São Luis até a São João tomando chuva só na travessia das ruas. A verticalização das galerias não aprovou e a novidade chegou à saturação.
Muito se mexeu, mas pior confusão a História não registra que a implantação da Rótula do carioca coronel Fontenelle. Naquela época Niemeyer sugeriu tirar todos os carros do centro, exceto táxi. Anteriormente, quando aqui esteve o arquiteto George Nelson sugeriu no Centro só carros tipo trombador de parque de Parque de Diversões com partida e ligação temporizada por ficha telefônica.
As linhas de ônibus papa-filas FNM Massari no Anhangabaú, que ao passar pelo lado de um Romi-Isetta parecia que acabara de botar um ovo e nós considerávamos "up to date" em tecnologia de transportes.
Dos carros lotações "avenidas", me lembro ter andado em uma limousine Rolls-Royce que antes servira ao Governador Ademar, mas pela pilotagem e cafonagem adicionada poderia considerá-la desatinada em total enlouquecimento podando outra lotação que servira ao Cardeal Mota. A, hoje lamentada, retirada dos bondes há vinte e cinco anos e o atual plano de Trolleybus são mudanças feitas em etapas que compararia a implantação do Minhocão como tratamento de choque, e que se não foi perfeito é o que tem valido para descongestionamento. O referido elevado felizmente deixou só em planos, um outro que saindo que saindo da Av. Senador Queiroz passaria sobre a Av. Prestes Maia, seguindo a Ipiranga, a Consolação, completando o anel viário.
Os arquitetos Beno Perelmuter e Eduardo Corona sugeriram na década passada uma linha de esteira rolante para pedestre utilizando os túneis e estações existentes e fechados há mais de trinta anos, da Praça Dom José Gaspar pelos viadutos até a Praça João Mendes. Esta obra de Prestes Maia, inaproveitada por onde passaria o metrô. As estações são usadas hoje para Alistamento Militar e Serviço Funerário. Nenhuma cidade pode ser perdulária para inaproveitar tal investimento como tem sido feito.
Por isso, quando do Concurso do Anhangabaú apresentei uma proposta de trem leve ligando estes túneis e seguindo em monotrilho pelo canteiro central das avenidas São Luis, Ipiranga, onde na Casper Líbero se ligaria outro que viria pela Rua do Oriente, Mercado, 25 de Março, Florêncio de Abreu, propondo viaduto sobre o Anhangabaú ligando à Rua Capitão Mor, Gen. Leitão, Casper Líbero, General Couto Magalhães, servindo o comércio da Santa Efigênia, Estação entre a Júlio Prestes e Luz; e finalmente pela José Paulino. Este segundo monotrilho elevado supriria um comércio por sorte linear só das 8h às 18h à mesma freguesia atacadista e que, por falta de estacionamento e infraestrutura comercial, está em risco de ser engolido por shopping centers especializados, como talvez já comece acontecer com a Nova Gasômetro, criado pelo Banco Interparts na Vila Guilherme, reunindo os principais coureiros e madeireiros do Gasômetro, numa das maiores ou hoje a maior construção em obras na Metrópole.

3-     ORÁCULO
O que acontecerá com o Velho Gasômetro? De uma coisa tenho certeza: ele é mais democrático que qualquer shopping. Vejamos, se alguém quiser lá se estabelecer fazendo concorrência com os existentes não terá dificuldades, mas no shopping será vetado.
Esse espaço democrático existe em todo o comércio linear definido na linha do monotrilho que propus, até que a Empresa Folha de São Paulo destine seus quarteirões, inclusive a antiga Rodoviária. Engoliria num Shopping da Eletrônica a Rua Santa Efigênia?
O Grupo Silvio Santos estuda trazer os estúdios da Vila Maria para a Rua Jaceguai, que já é predomínio dele e não inunda como acontece na Vila. Isto reforçaria o simpático caráter boêmio do atual Bexiga. O que acontecerá no entorno?
O pior negócio de São Paulo é ter um imóvel no Centro, de mais baixos aluguéis comerciais ou residenciais. A falta de estacionamento espantou o poder aquisitivo e uma década de falta de segurança pública levou-o a deterioração completa. Os casarões do início do século, que como residência não se identifica com a realidade social e, invadido pela expansão do Centro, estão se transformando em escritórios de grandes companhias, bancos, pensão, casa de cômodos e cortiços. A quantidade de cortiços na área central é hoje só comparável ao favelamento da periferia, como retrato de nossa política econômica social que extingue a classe média, a tradicionalmente indecisa e decisiva, mas que mantinha o comércio no Centro.
O melhor negócio de São Paulo é ter, no mínimo, um quarteirão no centro, podendo criar o ambiente desejado, já contando com toda infraestrutura existente e principalmente podendo ter seu próprio sistema de segurança pública e estacionamento gratuito, como os Shoppings Centers.
Assim é que teremos o maior shopping da América do Sul: o Shopping Center Norte, que ficaria mais bem servido se a Penitenciária se transformasse em denso conjunto habitacional, embora nos falte presídios, e então estaria ligado à estação metro Carandiru por um monotrilho elevado que até poderia ser o gaucho Aeromovel Coester. Será possível? Acho viável tal linha desde que se prolongue até o estacionamento do Palácio de Convenções do Anhembi.
O Playcenter está daqueles lados, em área junto ao centro, mas insuficiente a seus propósitos, uma possibilidade é incorporá-lo à Disneylândia com mais de 700 funcionários em 500.000 m² que o Grupo Silvio Santos estuda há 2 anos com anteprojeto e maquetes prontos na Rua Jaceguai, pleiteando a concessão da área no Parque Ecológico do Tietê. A Globo também estuda a mesma possibilidade, só comportamos um, quem será? Onde? E será?
A Praça da Sé tem sido bem usada como espaço do povo, embora entulhada pelos ambulantes. Lamentável é a Praça Roosevelt que substituiu a esplanada dos grandes comícios de Jânio e Ademar e virou do Supermercado, só nos falta fazerem um Shopping Center no Parque Dom Pedro II. Aliás, isto seria a melhor documentação paulistana de hoje para a posteridade: você preso num edifício controlado por circuitos de TV, deixando lá fora, de maneira invisível, a realidade, induzida a comprar ali e aquilo, enfim, George Orwell 1984! Varia de Shopping, mas as lojas são as mesmas, etc. Reinaldo de Barros ao entregar os prêmios do Concurso do Anhangabaú prometeu fazer outro para o Parque Dom Pedro II. Conversando em julho com o Secretário Arnaldo Madeira e o presidente da Emurb não se dispuseram em fazê-lo agora, apresentando-me prioridades na periferia, embora eu tenha conceituado o Parque simbolizando o Centro estraçalhado e sua solução envolveria a área arrasada ao longo do metrô entre as estações D. Pedro, Brás e Bresser. O Parque é uso diário de grande parte da população que reside na zona leste e encontra emprego no Centro ou por ele transita. Com o tamponamento do Tamanduateí tornou-o via expressa, as laterais da Avenida do Estado serão vias de trânsito local, permitindo ressurgir o comércio que lá existiu. No próximo janeiro, por esta via expressa, em poucos minutos poderemos ir da marginal Tietê ao Ipiranga. A obra continua e concluída ligará rapidamente marginal do Tietê com São Caetano e Santo André, numa diametral passando pelo Parque Dom Pedro II e zona de baixa densidade do Centro de São Paulo. E daí? Como ficará esta área de baixa densidade? Agora a Prefeitura está sem dinheiro para obras e existindo uma grande quantidade de profissionais dispostos a pensar a cidade, esta é a melhor hora para se projetar.

4-     PROPOSTA
Como proposta inicial do sociólogo Cesar Nascimento da Galeria Presença & Arte, e do engenheiro Reginaldo Paiva, então coordenador da Divisão de Transportes do Instituto de Engenharia, convidaram-me, como membro da Diretoria IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil e a coordenação do MPGD – Movimento dos Profissionais Por Um Governo Democrático, a debater o uso do Centro, ao que somamos o arquiteto Beno Perelmuter do Instituto da Cidade, engenheiro representando a AET – Associação de Estudos de Transportes, arquiteto Celso Franco representando o IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil e o arquiteto Willian Mumford, presidente do IBP – Instituto Brasileiro de Planejamento. Após sucessivas reuniões, conclui-se propor à Câmara Municipal como representante do povo, para ser órgão promotor de dois debates que se subsidiaram: o dos técnicos e os da comunidade. Por diferenças de dialeto conviria separá-los e junto contribuiriam ao Legislativo que proveria aos órgãos do Executivo, numa ação conseqüente e não um debate a mais.
À espera e na cobrança da ação do Legislativo Municipal desenvolvi estas linhas sobre o urbano formado pelos barões afrancesados e edificados pelo imigrante oriental da Liberdade, judeus do Bom Retiro e Higienópolis, adjacentes árabes da 25 de Março e Paraíso, italianos da Mooca, Brás e Bexiga, e tantos mais. Tantos que, procurando memória na figura popular do centro, identifiquei Germano Matias, Adoniran Barbosa e Marcondes Machado (Gió Bananieri) que embora não tendo nada de italiano foram seus legítimos representantes nesta anárquica metamorfose urbana. Heitor Penteado inaugurava o prédio do Banco do Estado de São Paulo com a presença do então prefeito de Nova York, Fiorello La Guardia, quando no alto do prédio Ibrahin Nobre, o Tribuno de 32, disse-lhes:
"Clamai silêncios que no peito enjaulo,
ante a paisagem que daqui se avista,
o chão, quem sabe, pode ser São Paulo,
porém o homem que nele habita, já não é paulista".
E então "The Core", o centro desta São Paulo é também:
"Il cuore della città".